Grimório


29/08/2007


Banco dos réus, elites e intelectuais de esquerda


Por Reinaldo Azevedo

Vejam abaixo o panteão dos réus do mensalão. Ali está a cúpula do partido que está no poder. Hoje, eles não detêm mais o poder formal na legenda e no governo, mas ainda são autoridades incontestes do petismo e do estado paralelo. Sua influência se espalha de forma tentacular pela administração pública. Não é um telefonema de Zé Dirceu apenas que é “UM TELEFONEMA”, como ele próprio definiu. Todos ali ainda têm grande influência. Quando menos porque representam, entendo, a nova classe social que chegou ao poder junto com Luiz Inácio Lula da Silva, o Grande Chefe do réus. Hoje, é bem provável que o publicitário Duda Mendonça dê mais peso ao banco — ele, o homem que traduziu o petismo para os simples de espírito. Mas como é que chegamos aqui? Como é que o país foi entregue a isto que o procurador-geral chama “uma quadrilha”? Acreditem: parte da resposta, eu vi ontem, no programa Roda Viva, que entrevistou o sociólogo Alberto Carlos Almeida, autor do livro A Cabeça do Brasileiro, publicado pela Editora Record . Mas, antes que fale do programa, farei uma pequena digressão.

Depois da redemocratização, desde Fernando Collor, governa o Brasil quem obtém a maioria nas urnas. Não sei se notam: a esquerda tenta fazer crer que apenas Lula obteve os votos dos pobres, o que lhe conferiria especial legitimidade — ou, pior, lhe permitiria ir além da legitimidade de seu cargo e da legalidade também. Atribuir a eleição do Apedeuta aos pobres obriga a atribuir-lhes também a eleição de FHC e Collor. A resposta tristemente óbvia dos petistas, eu já conheço: “Ah, mas só agora os miseráveis votaram em alguém do seu grupo social”. Trata-se de uma mentira não-autorizada pelos números e pela história. Ou, na hipótese de o PT perder a próxima disputa, forçoso será admitir que os pobres terão votado contra si mesmos. No fundo, é isso mesmo o que a esquerda acha, razão por que a sua adesão às urnas é, em termos históricos, recente. Só respeita disputa que ela vença.

O que Lula conseguiu foi outra coisa: estabeleceu uma divisão na sociedade brasileira entre o que o PT chama “ricos” e “pobres” como nunca houve. Aí, sim, o petista introduziu uma novidade — péssima novidade — na política. Resulta dessa divisão algum benefício para os menos favorecidos? Absolutamente nada. No que diz respeito ao futuro, as escolhas, ao contrário, os condenam à mendicância. Tornou-se tabu, por exemplo, questionar os fundamentos do Bolsa Família, um programa emergencial e compensatório surgido no governo FHC e tornado a única política social relevante do governo Lula, ampliado como indústria do voto. Quanto ao mais, perguntem como vai a saúde no Nordeste, por exemplo. Assim, concluo essa digressão afirmando o óbvio: em termos estritamente numéricos, serão sempre os pobres a eleger o presidente da República. A razão é simples: são a maioria.

Na roda viva
Agora volto ao Roda Viva e à minha indagação inicial: como chegamos aqui? Como é que um país é obrigado a pôr no banco dos réus a cúpula de um partido e de um governo? Quem elegeu responde, é certo, pela escolha que fez. Mas boa parte da elite intelectual brasileira — especialmente a de esquerda — divide essa responsabilidade com a massa menos informada. Esta foi, vá lá, culposa; aquela é dolosa. Um dolo ético, que nasce da suposição de que os horizontes gloriosos com os quais um governo de esquerda acena justificam os meios criminosos. Não é maquiavelismo; é marxismo tosco; não é realismo; é stalinismo criminoso.

A TV Cultura convidou as seguintes personalidades para entrevistar Alberto Carlos Almeida: Roberto Damatta, antropólogo; Claudio Weber Abramo, diretor executivo da Transparência Brasil; Alon Feuerwerker, editor de política do jornal Correio Braziliense; Francisco Alambert, professor de história contemporânea da USP, e o cantor e compositor Lobão. Almeida estava lá para falar de seu livro. Duvido que a esquerda tenha remotamente produzido um texto tão contundente mostrando a importância que tem a educação na formação do caráter de um povo. Com base em dados empíricos, colhidos numa pesquisa, ele descobriu que a educação torna, na média, as pessoas menos tolerantes com os desmandos e mais tolerantes com a diferença; menos tolerantes com as incompetências do estado e do governo; mais tolerantes com a individualidade — sua e alheia.

Assim VEJA sintetizou na revista da semana passada o seu estudo: “A parcela mais educada da população é menos preconceituosa, menos estatizante e tem valores sociais mais sólidos. Se todas as pessoas em idade escolar estivessem em sala de aula hoje, a pleno vapor, o Brasil acordaria uma nação moderna no dia 1º de janeiro de 2025 – depois de um ciclo completo de educação. Os brasileiros passariam a ter baixíssima tolerância à corrupção e esperariam menos benesses de um estado protetor. Funcionários públicos ineficientes e aproveitadores seriam uma raça em extinção. Os cidadãos lutariam mais por seu futuro, em vez de se entregar distraidamente à loteria do destino. Nesse país, as pessoas de qualquer credo ou classe social se veriam como portadoras de direitos iguais. As diferenças sexuais seriam mais respeitadas. Provavelmente pouquíssimos endossariam a frase estampada no alto da página 87 – ‘Se alguém é eleito para um cargo público, deve usá-lo em benefício próprio’.”

Mas foi o que bastou. O uspiano Francisco Alambert, que, visivelmente não havia lido o livro, ficou a pouco de ter um ataque de apoplexia no programa, virando os olhinhos nervosos e impacientes, enquanto o entrevistado falava. Não fazia propriamente perguntas, mas lançava quase reptos no limite da civilidade, como se ignorante fosse o outro. Santo Deus! O que dizia de tão espantoso Alberto Carlos de Almeida? Resumo assim: ética e tolerância são valores que podem ser ensinados e podem ser aprendidos na escola. A baixa educação é compatível com um padrão de maior relativismo. Isso, ele colheu em sua pesquisa. Os menos educados tendem, por exemplo, a condescender com o “rouba, mas faz” e com a idéia de que é normal um político tentar se arrumar e beneficiar parentes.

Ah, acontece que a pesquisa mexe com duas taras das nossas esquerdas: 1) as elites (palavra que nem está no livro) brasileiras são especialmente malvadas, perversas mesmo; 2) o povo é dono de um saber que vai se formando na luta: o saber do oprimido. Ora, o livro demole os dois mitos, que alimentam teses vagabundas, universitários vagabundos e políticos vagabundos, que terminam no banco dos réus — quando o desfecho é bom. É mentira. A elite brasileira (quem empregou este termo foi a VEJA e estou empregando agora) cultiva, na média, os melhores valores da democracia, sendo certo que existem comportamentos fora do padrão. À medida que diminui a escolaridade, o que costuma ser coincidente com a pobreza, cai o apreço pelos valores democráticos.

Alambert se contorcia na cadeira. Ele entendia o que Almeida achou na pesquisa como uma tese: “o povo não sabe nada; os ricos brasileiros é que são bacanas”. E isso, em absoluto, não está no livro; não está na fala do autor; não está nem mesmo no debate. Numa de suas intervenções, o uspiano deixou claro que via as nossas elites (como se ele próprio não pertencesse a seus quadros) como fonte de todos os males do país. Estava nervoso. Ner-vo-sís-si-mo!!!, eu diria. Quando o entrevistado afirmou que elas são menos tolerantes com as ditaduras do que o povo, ele quase cai da cadeira. Tivesse menos opiniões e fosse mais dedicado, deveria levantar o traseiro da cadeira uspiana e fazer pesquisa: por que não vai perguntar o que o seu amado “povo” acha de coisas como linchamento, fechamento do Congresso e homossexualismo?

Insisto
Sim, perguntemos sempre: “Como foi que chegamos ao ponto de ter a cúpula do governo no banco dos réus?” Sem dúvida, os pobres que Alambert conhece de seu provável manual marxista — um marxismo pobrinho, tudo indica — elegem presidentes da República, mas são as elites intelectuais, às quais ele pertence, que os justificam e os explicam. No Brasil, infelizmente, elas são de esquerda — tão de esquerda, que se mostram incapazes de entrevistar um sociólogo que não seja alinhado com o seu pensamento sem que reste no ar a suspeição de má-fé. Vejam o programa: em certos momentos, quase se podia tocar em tal esfera. Parecia que Almeida estava ali para chicotear o povo e propor a beatificação dos ricos.

Num péssimo momento do programa, Paulo Markun fez ao entrevistado uma pergunta delinqüente de um espectador: se as nossas elites são tão boas, como se explica que jovens de classe média tenham espancado uma doméstica? Aposto que houve perguntas melhores do que esta. Porque esta é puro gangsterismo da rede petralha, que aparelha até programa de televisão. É tão legítimo atribuir o espancamento da doméstica à classe média quanto atribuir aos pobres o assassinato do menino João Hélio. Esses cretinos conhecem a rotina de violência nas periferias, onde o “povo mata o povo?” Mais um pouco, e alguém acusaria os garotos de pertencer ao movimento Cansei...

A cúpula de um partido e de um poder está no banco dos réus (uma prova, por enquanto, da vitalidade das nossas instituições, que ela ainda não conseguiu destruir) porque cometeu crimes. E os cometeu com o incentivo e o patrocínio teóricos da esquerda intelectual brasileira. Essa gente tem o mesmo DNA moral daqueles que, no passado, justificaram todos os crimes do stalinismo e do maoísmo.

No meu artigo de estréia na VEJA, há um ano, escrevi o que segue em azul:

“(...) a democracia é um regime legitimado pela maioria, mas sustentado pelas elites, de que a imprensa faz parte. As esquerdas se arrepiam diante dessa afirmação. Entendo.

A alternativa histórica às elites esclarecidas é o déspota esclarecido. Se, no passado, ele podia ser um homem, no presente, tem de ser um "partido", um ente de razão com poder de se sobrepor às leis, embora não dispense o demiurgo. Lula é o Tirano de Siracusa (aquele que Platão tentou converter à filosofia, coitado!) dos intelectuais petistas. A decana do delírio é a filósofa Marilena Chaui. No livro Simulacro e Poder: uma Análise da Mídia, ela afirma que o discurso da direita se sustenta no senso comum. À esquerda caberia desmontá-lo para criar uma "nova fala".

Marilena é a Tati Quebra-Barraco da academia. Seu funk filosófico apela à barbárie, mas tem o charme da resistência, a exemplo de certas canções de Chico – Lula é o "meu guri" que chegou lá. Ela ressuscita a tara do marxismo vagabundo de que o senso comum existe como falsa consciência, a ser superada pela iluminação de uma razão transformadora. Conclui-se que o povo, deixado à própria sorte, vai para a direita. Se educado pela militância, pode atravessar os umbrais da liberdade. Na China de Mao Tse-tung, 70 milhões morreram sob o efeito dessa luz.”

A pesquisa de Almeida acaba com esses falsos dilemas e essas falsas dicotomias, e a academia, como sempre, será o último bastião de resistência do atraso. Boa parte de nossos intelectuais está muito ocupada justificando crimes para que possa pensar numa sociedade mais ética .

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Escrito por Renan às 10h45
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26/08/2007


Sem cortes

Eu adoro tomadas longas. Eis um exemplo de uma cena de luta sem cortes de quase quatro minutos. Demais. Um dia ainda vou filmar algo assim. :)



Escrito por Renan às 12h14
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